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Você conhece a Carne Carbono Neutro? | Seção - Bovinos

*Roberto Giolo de Almeida

Hoje a exposição do termo “carbono” na mídia é bastante frequente, sendo associado com gases de efeito estufa (GEE) e a questão ambiental, em todos os setores da economia global. No caso do Brasil, como o setor da agricultura contribui com parcela importante para o saldo positivo da nossa balança comercial, o impacto relacionado ao termo é proporcional.

As atividades agropecuárias geram ou emitem GEE, sendo os principais gases: o gás carbônico (CO2), o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O), que são quantificados em uma unidade comum chamada gás carbônico equivalente (CO2e). De maneira geral, quanto maior a quantidade de CO2e emitido em relação a quantidade de produto gerado, menor o desempenho econômico e ambiental do sistema de produção.

Destes GEE, o metano é o que mais contribui com as emissões da agropecuária e é proveniente da digestão dos ruminantes (bovinos, bubalinos, ovinos e caprinos), além do gás carbônico que é emitido pelas queimadas, pelo uso do solo e pelo desmatamento, e do óxido nitroso, pela decomposição dos dejetos dos animais e pelo uso de fertilizantes nitrogenados.

Levando-se em conta a dimensão das áreas com pastagens no Brasil e pelas suas características de baixos índices zootécnicos, a pecuária de corte tem sido taxada como uma grande vilã ambiental, de maneira mais incisiva, desde meados da década de 2000, com impactos comerciais recorrentes envolvendo a carne brasileira.

Neste contexto, o Plano ABC, lançado em 2010, foi uma importante iniciativa do Brasil, para estimular tecnologias agropecuárias mais eficientes, visando a mitigação da emissão de GEE do setor, como a recuperação de pastagens degradadas e os sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta.

Assim, em 2011, a Embrapa liderou uma grande rede de pesquisa científica, chamada Rede Pecus, para desenvolver estudos voltados para a pecuária, a partir de tecnologias eficientes e já em uso pelo produtor. A ideia da carne carbono neutro surgiu em 2012, e foi formulada a partir de um sistema de produção capaz de neutralizar ou compensar as emissões de metano dos animais em pastejo por meio do sequestro de carbono realizado pelas árvores presentes na pastagem. Ou seja, a partir de um sistema silvipastoril (integração pecuária-floresta ou IPF) ou de um sistema agrossilvipastoril (integração lavoura-pecuária-floresta ou ILPF), com certo número de árvores dispostas em arranjo espacial adequado, é possível esta compensação. Porém, o potencial destes sistemas não se limita apenas a essa característica, pois o sombreamento das árvores proporciona melhor condição de microclima e conforto térmico animal além de melhor valor nutritivo do capim, contribuindo para um melhor desempenho produtivo e reprodutivo dos animais em pastejo. Em casos de eventos climáticos extremos como geadas e inversões térmicas muito bruscas, estes sistemas também se mostram mais resilientes, protegendo o capim e os animais. A diversificação da propriedade também é vista como mais um ponto a favor destes sistemas, apesar da maior complexidade de seu manejo.

Em 2015, foi então lançada uma publicação técnica sobre a marca-conceito Carne Carbono Neutro® (CCN), com diretrizes envolvendo práticas adequadas de manejo da pastagem, de suplementação alimentar e de bem-estar animal que garantissem a produção de carne dentro dos padrões de qualidade, além de práticas adequadas de manejo das árvores e para o monitoramento do carbono do solo, assim como a metodologia para cálculo da neutralização do metano, de acordo com referenciais adotados pela comunidade científica internacional.

A partir de 2016, foi aprovado um projeto da Embrapa para o desenvolvimento desta marca-conceito, envolvendo a elaboração e validação do protocolo, e de estudos socioeconômicos e ambientais em sistemas de produção em fazendas comercias, localizadas em três biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica. Também, foi proposto um modelo de negócio envolvendo a certificação do uso do protocolo por uma instituição independente (certificação de terceira parte), em uma perspectiva de a marca CCN atender a demanda de mercados mais exigentes como o europeu.

A fase de elaboração do protocolo contou com a seleção de indicadores de fácil monitoramento por parte do produtor e pelo técnico da certificadora, e a fase de validação envolveu a aplicação do protocolo em pelo menos um ciclo de recria e terminação de animais nas fazendas selecionadas.

Neste período, houve grande demanda internacional por informações pela CCN e outros países tomaram iniciativas semelhantes, como a Austrália, com seu programa para produzir carne carbono neutro até 2030 (Carbon Neutral by 2030, CN30), a Nova Zelândia com seu programa para produzir carne carbono neutro até 2050 (Beef + Lamb New Zealand, B+L NZ), e os nossos vizinhos, Argentina, Colômbia, Paraguai e Uruguai.

Em 2018, a Embrapa e a Marfrig Global Foods estabeleceram uma parceria para ampliar os estudos relacionados à CCN resultando na incorporação ao protocolo das boas práticas a serem adotadas na planta frigorífica, desde o recebimento dos animais, abate e processamento das carcaças e da carne.

Esta parceria propiciou o lançamento da Carne Carbono Neutro® no mercado nacional em agosto de 2020 e a perspectiva de ser lançada no mercado externo, assim como uma nova marca, a Carne Baixo Carbono®, ainda em 2021.

Atualmente a temática sobre GEE tem aberto oportunidades para a agropecuária, com possibilidades de maiores ganhos ao produtor pelo maior valor agregado a seu produto, além da valorização de sua propriedade como um todo, pela adoção de uma certificação de terceira parte como a marca CCN, além da sinalização do governo brasileiro com políticas públicas como o Plano ABC+ e com o desenvolvimento de legislação específica sobre pagamento por serviços ambientais, mercado de créditos de carbono e outros tipos de finanças verdes.

Para o país, protocolos de certificação como a marca CCN, que foi a primeira do gênero no mundo, e que adotam o modelo de monitoramento-relato-verificação (MRV), trazem maior credibilidade e competitividade à pecuária como um todo, a ponto de outros países também estarem em processo de desenvolvimento de suas estratégias, como a certificação mais recente no mercado, a Pecuária Baixo Carbono, de Portugal.

Por outro lado, esta temática também pode ser usada por outros países como barreira não-tarifária aos produtos brasileiros, porém, o Brasil possui tecnologias agropecuárias eficientes e mitigadoras de GEE e processos de certificação que atestam a produção de carne com qualidade intrínseca e ambiental.

Yes, we have Carbon Neutral Brazilian Beef !

Se você quiser saber mais sobre as diretrizes técnicas da marca-conceito Carne Carbono Neutro®️, acesse o link da Embrapa: https://www.embrapa.br/busca-de-solucoes-tecnologicas/-/produto-servico/3488/marca-conceito-carne-carbono-neutro . E se você for produtor e tiver interesse em conhecer o programa da Carne Carbono Neutro®️ para implantar o protocolo em sua propriedade, acesse o link da CNA: http://ranimal.cnabrasil.org.br 

null Pesquisador da Embrapa Gado de Corte, onde desenvolve estudos com sistemas de produção, em especial, sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta, e lidera o projeto Carne Carbono Neutro.