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Vivências na pecuária, e processo de sucessão familiar | Da Porteira para Dentro

*Karin Fernanda Schwambach

Muito se ouve falar sobre sucessão familiar quando o assunto é o futuro das propriedades rurais. A impressão que se passa, é que isto é algo obrigatório. Além disso, para que esse projeto possa ser bem-sucedido, é preciso que se contrate um suporte técnico de bons advogados especialistas, que orientem nos caminhos das leis, papéis e burocracias.

O que vivemos na vida real, é um processo um tanto diferente. Talvez poderia ser assim suave, mas é muito mais complexo do que se mostra. É mais difícil porque é algo que envolve muitas emoções, onde os envolvidos são pessoas muito próximas, que se querem bem, mas que muitas vezes tem dificuldades de compartilhar anseios, dúvidas, fraquezas, frustrações. Temos orgulho, temos opiniões, temos jeitos diferentes de se pensar, que torna o processo cheio de acertos e erros, lágrimas e risos, tolerância e aprendizado.

Acredito que sucessão familiar é uma escolha de vida. Em casa somos em cinco: o pai agrônomo, a mãe professora, o irmão mais velho agrônomo, sou a do meio, arquiteta, a minha irmã mais nova é agrônoma também. Mesmo que grande parte tem formação na área de agronomia, isso não é o suficiente para simplificar o processo.

Para que a sucessão aconteça, é necessário que haja um crescimento pessoal, força de vontade para encontrar caminhos visando a melhor realização das atividades. Diferente de outro tipo de sociedade, a empresa familiar demanda satisfação pessoal e felicidade.

Nunca pensei em trabalhar na fazenda como eu trabalho hoje. Formei em arquitetura na UFMS em Campo Grande/MS, trabalhei alguns anos, até que tive a oportunidade de fazer Pós-Graduação na Alemanha. Morei e estudei lá durante 3 anos.

No ano de 2012, o pai adquiriu uma propriedade em Bonito/MS, nossa pecuária foi transferida de Dourados/MS para esta região. A compra desta área, trouxe oportunidade para meu irmão tocar a atividade, que estava sobre arrendamentos, ganhou uma área própria e uma nova lida. Meu irmão mudou-se para Bonito, assim o fez com muito êxito.

Minha irmã cursou agronomia e administração, se identificou mais na área financeira da agricultura. Em 2014, após trabalhar para um grande grupo de agropecuária, o pai a convidou para vir trabalhar na fazenda. Assumir o financeiro, junto com ele. Esse processo também teve muitos ajustes, até chegarmos na organização que temos hoje.

Ao retornar ao Brasil, dediquei-me à área acadêmica, como docente nos Cursos de Arquitetura em Presidente Prudente/SP, depois em Dourados. Gostei muito. Porém, minha vontade de aproximar-me das essências da natureza, iniciei o aprendizado com construções mais ecológicas com terra, bambu, palha e outros materiais. 

Com o casamento de meu irmão em 2014, tivemos uma nova reestruturação nas atividades da fazenda, sua esposa trabalhava em Dourados, assim, foi feita uma troca, meu irmão foi para agricultura em Dourados, e o pai veio pecuária em Bonito.

Em 2016, eu recebi a proposta do pai para trabalhar na pecuária, com a intenção de tocarmos juntos a atividade. Desta maneira, eu poderia aproximar-me da natureza, ao mesmo tempo exercer a arquitetura, minha profissão que tanto gosto. Com 33 anos, iniciei minha jornada na pecuária.

Com isso, o time familiar encontrou-se completo: o pai é o gerente geral das atividades, meu irmão na agricultura em Dourados/MS, minha irmã no financeiro, a mãe auxiliando minha irmã, eu na pecuária em Bonito/MS.

No início eu morava em Dourados, 265km de Bonito, percorrendo mais 65km até a fazenda, região de cerrado, diferente do que eu estava acostumado em Dourados. No começo, confesso que eu não sabia direito “onde era cabeça e onde era o rabo do boi”. Para mim, iniciaram-se as dificuldades da atividade: como mulher, de outra formação... não foram poucos os desafios.

Para aprender a pecuária, decidi participar de todas atividades que acontecem na fazenda: montar à cavalo, fazer o manejo do gado, rodeio, cura de umbigo de bezerro, cuidados com machucados dos animais, roçar o pasto com o trator, salgar os cochos, preparar o trato e distribuir, e nas atividades do mangueiro: embarque de gado, vacinação, inseminação entre outras.

Nós, da família, gostamos de assistir palestras e cursos. Iniciamos um processo de aperfeiçoamento do controle da fazenda, anotações, brincos, chip, processamento de dados para melhor gerenciamento das atividades.

Cada técnico que passa pela fazenda, auxilia-nos com cursos e capacitações. Assim agregamos muito conhecimento na nossa atividade. Atualmente, meu pai e eu tocamos a pecuária. Ele é responsável por contratação de pessoal, pela parte de pastagem e toda infraestrutura (cercas, estradas, açudes e etc). A mim compete a parte dos animais, manejo, nutrição, reprodução, em todo o processo. Trocamos ideias antes de tomar decisões e fazer nossas escolhas.

Trabalhando na fazenda, aprendi:

  • Um bom negócio, não é quando a gente ganha, porque aí o outro está perdendo, mas sim é quando agrada ambas as partes;

  • Aprendi muito sobre comercialização, compra e venda de gado;

  • Fazer o ´feijão com arroz´ na fazenda já é muito difícil: pasto limpo, água boa, cerca puxada, gado sadio, pessoas trabalhando bem;

  • Trabalhar com pecuária, não é só trabalhar com os animais, e também com as pessoas que lidam com os animais;

  • Na fazenda temos que aprender a lidar com as estações do ano, e assim se preparar para enfrentar os desafios de cada época (períodos chuvosos e estiagens);

  • A arquitetura está muito presente na fazenda, nas marcações de cerca, construções rurais como barracão, mangueiro, casa para funcionário;

  • A sucessão dos funcionários da pecuária também é um desafio. É difícil ter um curso de formação de profissionais nesta área, e está cada vez mais raro encontrar habilitadas para essa atividade.

  • Meu pai diz que fazenda não deveria se chamar fazenda, e sim FAZENDO, porque o serviço nunca acaba;

  • Atividades da área rural não é só para pessoas do sexo masculino, vemos a cada dia mais mulheres ocupar espaços nesta área.

Da parte burocrática da sucessão familiar, nós ainda precisamos consultar profissionais competentes da área para auxiliar-nos. E assim seguimos em frente. Sem receita pronta. Trabalhando. Pensando. Fazendo. Acertando. Errando. Mas com muito entusiasmo, amor e vontade de fazer acontecer.

null Arquiteta Urbanista, mestre em Urbanismo pela Bauhaus-Universität Weimar. Pecuarista, formada pela vida.