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QUEM DÁ MAIS, A VACA OU O BOI? | ASSUNTOS DIVERSOS |

*Antonio Chaker

Em mais de 20 anos de consultoria, uma das perguntas que me fazem com mais frequência em relação à criação de gado bovino é onde se ganha mais. Afinal, o que é mais rentável, fazer cria, o ciclo completo ou recria e engorda/terminação?

É óbvio que há fatores como perfil do produtor e características da propriedade que devem ser levados em conta, porém acredito que consegui reunir números interessantes que podem ajudar a responder com profundidade essa nada simples questão.

O primeiro grande ponto a se considerar é que como a atividade é feita, seja ela qual for, conta mais do que a escolha do método em si. Já adianto logo uma informação, do tipo que hoje o pessoal costuma chamar de spoiler: na média, o desempenho das fazendas de cria fica acima da média das que realizam o ciclo completo ou que se dedicam apenas à recria e terminação. Não pensem, porém, que o assunto se encerra aqui.

A conclusão que expus acima refere-se a uma média, obtida com 447 propriedades analisadas neste ano pela equipe do Instituto Inttegra, e se refere apenas ao resultado em reais por hectare ao ano (R$/ha/ano). No entanto, se consideramos outros fatores, listados na tabela a seguir, será possível ver variações de acordo com o parâmetro utilizado.

Fonte: Instituto Integra de Métricas Agropecuárias

Fonte: Instituto Inttegra de Métricas Agropecuárias

Como se pode ver, na média, a diferença de resultados entre os três tipos de atividade não é significativo. A cria só se torna rentável quando se obtém mais de 160 kg de bezerro por vaca exposta – e se o resultado for abaixo de 110 kg, é prejuízo.

Portanto, a primeira grande conclusão é que o que mais conta é a forma como se administra a fazenda. Sua capacidade de entregar lucro está diretamente ligada no encontro do equilíbrio entre produtividade e desembolso, do bom uso dos recursos.

Diferença nos resultados das mais bem-sucedidas

Os números que mostrei ali em cima se referem à média das propriedades analisadas, das mais às menos lucrativas. Vou mostrar, então, como se apresentaram as 30% melhores fazendas do grupo. Nessas, o resultado por hectare/ano sobe para R$ 680 (cria), R$ 708 (ciclo completo) e R$ 1.335 (recria e terminação). Considerado apenas este fator, o valor apurado na recria é quase o dobro das demais. O que explica isso?

Bem, no geral, essas fazendas com melhor desempenho fizeram, em contrapartida, investimentos anuais bem mais altos. Dessas “top 30%”, o desembolso por hectare ao ano, sem considerar as compras, ficou em R$ 852 (cria), R$ 2.045 (ciclo completo) e R$ 4.271 (recria e terminação). Opa! Deu para notar que o investimento nas propriedades com melhor resultado em reais por hectare foi proporcional ao resultado, não é mesmo? Nesse aspecto, não há muito segredo, quanto mais se investe, mais se tem retorno. Será, então, que esse deve ser o único índice a ser considerado na hora de optar por uma atividade pecuária?

Para nós, está claro que não. Primeiramente, quando se considera outro importante fator, que é o Resultado do Investimento Operacional (RIO). Esse índice considera o valor do gado, do maquinário e o caixa (capital de giro) da propriedade e, entre as mais lucrativas, a diferença percentual do RIO anual praticamente desaparece, ficando em 14,6% (cria), 11,2% (ciclo completo) e 12,3% (recria e terminação). Já a TIR atinge, respectivamente, 1,82%, 1,24% e 1,82%, ou seja, taxas bem próximas.

Aí você lê tudo isso e percebe que ainda não respondi a pergunta do título. O motivo é que a conclusão é que a escolha entre uma das três atividades vai depender do foco e do perfil do produtor. Esquecendo o boi e olhando como investidor, a comparação é como se fosse escolher entre renda fixa e ações. A cria e o ciclo completo atendem produtores com menos capital disponível para investir, oferecendo menos risco e menos retorno. Já a recria e engorda demanda mais aporte financeiro e percentual das propriedades.

Considerando o RIO, a engorda gera mais caixa, mais volume financeiro, porém trabalhar a cria é mais seguro, assim como atuar no ciclo completo é um “colchão” que protege o produtor das oscilações do mercado. Nesta última atividade, no entanto, vale o alerta: ao optar por trabalhar com bois, vacas, bezerros e novilhas, é natural que se perca desempenho nos índices individuais, pois a atenção fica pulverizada nas diversas áreas da produção. Nesse caso, específico, a dica é se especializar em uma dessas etapas, mesmo mantendo as demais. Dessa forma, o produtor sai da média em uma das etapas e pode se destacar no mercado, gerando mais rentabilidade ao negócio. E não se engane, apesar de grandes mudanças recentes na @ do boi e no quilo bezerro, a tendência de resultado é a mesma.

Não é uma escolha fácil nem uma resposta simples, como se pode ver. Por isso, é fundamental conhecer sua fazenda, sua disposição ao risco, perfil da equipe e capacidade financeira antes de escolher ou mesmo mudar de atividade na pecuária. Tenha em mente que, como tudo na vida, há prós e contras, e todos esses diversos fatores devem ser considerados na tomada de decisão.

Antonio Chaker - Zootecnista. Mestre em Produção Animal pela Universidade Estadual de Maringá – UEM. Coordenador Instituto Inttegra.