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Nutrição Animal - Transformando alimentos em carne por meio de uma "máquina animal"

*Kamila Andreatta

Você já se perguntou por que os animais ruminantes estão em toda parte do mundo e muitas vezes sobrevivem em condições extremamente desafiadoras?

A grande mágica desses animais é justamente poder utilizar alimentos que os outros mamíferos não conseguem. Ruminantes são capazes, via microrganismos ruminais, degradar celulose e hemicelulose e obter energia a partir disso via fermentação microbiana no rúmen.

Além disso, esses microrganismos são capazes de transformar qualquer nitrogênio que entre e seja disponível em proteína microbiana. E é justamente essa proteína microbiana que o animal utiliza no seu metabolismo majoritariamente.

Quando falamos de produção de carne precisamos lembrar que 84% dos animais são terminados a pasto e os que são terminados em confinamento passaram a maior parte de sua vida no pasto.

Logo, não é uma falsa a afirmativa dizemos que PASTO É LAVOURA DE CARNE. Onde nós temos energia solar, água que vem da chuva e nutrientes que colocamos no solo, vale ressaltar que nós quem colocamos nutrientes no solo pois se não o fizermos, em algum momento as reservas de nutrientes dele vão se esvair e a nossa produtividade reduzir gradativamente. Diante disso, podemos afirmar que o menor custo que se pode ter em produção de carne bovina é justamente a pasto. Porém, isso não inviabiliza a terminação em confinamento, que é uma técnica que permite altas taxas de ganho de peso e maior concentração de animais por área acarretando na aceleração do giro de capital. Além de ser uma alternativa em momentos de problemas com disponibilidade de pasto, seja lá por qual motivo for.

Na produção de carne bovina está embutida justamente essa grande capacidade adaptativa dos ruminantes via Câmara de fermentação. O que os microrganismos não utilizam é fonte de energia para os animais ruminantes como acetato, propionato e butirato e também como precursores para síntese de tecido adiposo (acetato e propionato) tanto de forma direta, como indireta.

Perante essas afirmativas, podemos afirmar que os bovinos são máquinas de produção de carne altamente eficientes, que utilizam produtos de baixo custo (pasto, resíduos e coprodutos industriais), que outros animais não ruminantes são incapazes de utilizar, e convertem isso na molécula mais nobre que temos e de maior valor de mercado: proteína animal!

PORÉM, PODEMOS POTENCIALIZAR ESSA HABILIDADE, a ciência está a serviço da melhoria, adaptação e evolução de diversas coisas, inclusive da produção animal.

Quando falamos em PRODUÇÃO ANIMAL, temos os seguintes pilares: GENÉTICA, NUTRIÇÃO, SANIDADE E MANEJO. Esses fatores são interdependentes. Se voltarmos algumas décadas por exemplo, nos anos 70 não era difícil encontrarmos bovinos e até rebanhos inteiros com sintomas severos de deficiência mineral, que foi quando se introduziu a suplementação mineral profilática. Apesar disso, a produtividade era muito baixa, a degradação das pastagens visíveis, animais pernaltas e pouco eficientes. Pois bem, o melhoramento fez e ainda faz um árduo trabalho em busca de fazer com que os animais sejam mais produtivos e eficientes em converter alimento em produto animal, no caso em questão, CARNE.

No início década de 80 inicia-se uma nova fase em que a suplementação mineral não busca mais evitar doenças por falta de minerais mas também para melhorar os índices zootécnicos dos rebanhos. Já no final desta década começamos a difundir a relação custo/benefício da suplementação mineral-proteica, porém ainda utilizada apenas nos períodos secos do ano.

A ciência não para e é movida pela curiosidade: Dá pra melhorar?

É quando na década de 90, começa-se a difundir e demonstrar os benefícios da suplementação “personalizada” de acordo com o período do ano e categoria animal. A partir daí os benefícios em se investir na suplementação começam a ficar cada vez mais evidentes.

Mas ainda estávamos com produtividade baixa, pouco mais de 1@/ha/ano.

A partir dos anos 2000 começamos a difundir suplementação não no período seco mas também durante todo o ano adequando as necessidades de cada momento e categoria animal para que consigamos abater animais jovens, de até 24 meses, com qualidade de carne e carcaça. Desta forma conseguimos aumentar o giro de capital e tornar a atividade mais sustentável economicamente.

Os animais são muito responsivos à melhoria da dieta, isso se deve ao melhoramento genético e à evolução na nutrição animal que saiu de fornecer minerais para evitar doenças a ofertar não apenas dieta balanceada de acordo com o que se espera do desempenho destes animais mas também a moduladores da fermentação ruminal, como probióticos, prébioticos e óleos essenciais que atuam como se fosse um sintonia fina na produtividade. Não devemos esquecer da programação fetal, que consiste em fornecer nutrientes específicos às matrizes de acordo com a fase de desenvolvimento dos fetos para que nasçam animais com grande potencial de desenvolver musculosidade e tecido adiposo.

Ultimamente estamos na marca de 4,1 @/ha/ano em média nacional, porém, com disponibilidade de técnicas que nos permitem chegar numa produtividade 10 vezes maior. E se incluirmos sistemas irrigados, podemos evoluir para algo próximo à 60@/ha/ano.

Ainda vale ressaltar que a técnica de confinamentos de bovinos no país teve evolução e adesão meteórica após os anos 2000. Saímos de dietas com relação Volumoso: Concentrado de 60:40 para trabalhar com dietas sem volumoso e utilização de fibra fisicamente efetiva que é adicionada pela indústria em seu pelets específicos para esta modalidade.

Mesmo em confinamentos onde não se utiliza os pelets, a quantidade de volumoso reduziu a níveis inferiores a 10% e isso só foi possível sem causar prejuízos à produtividade e saúde animal devido à evolução da nutrição onde o uso de aditivos garantem a saúde ruminal mesmo nestas situações desafiadoras de modificação do perfil fermentativo “padrão” destes animais.

Toda essa evolução que enxergamos fez com que quando as técnicas de produção são aplicadas corretamente, transformamos um fusca (uma pecuária romântica de passos lentos) em um Porsche (cheia de tecnologia e “agressividade”).

A fisiologia digestiva dos bovinos nos ajuda muito com isso pois são uma verdadeira “usina de reciclagem”, capazes de transformar o que ninguém mais utilizaria em ouro (CARNE).

nullZootecnista, Mestre e Doutora em Zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa – UFV. Professora e pesquisadora em bovinos de corte pela UFMT-Sinop. Membro coordenadora do NEPI (Núcleo de Estudos em Pecuária Intensiva, @NEPI-UFMT). Fundadora do Agro de Salto (@agrodesalto).

Instagram - @kamila_andreatta