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Desafios e avanços da cadeia da carne bovina no Brasil | Bovinos

*Celso Ricardo

Brasil, o maior exportador de carne do mundo, mas e daí? O que é verdade e o que não é verdade? Vejamos. Temos um rebanho comercial grande, porém, sem qualidade. Nossa taxa de desfrute é baixa e a qualidade dos animais.

Trabalho com o setor da carne bovina a 26 anos e atuei em 15 estados brasileiros e pude ver que, no máximo, exagerando, 25% dos animais que compõem as escalas de abate no Brasil possuem qualidade (acabamento de gordura e conformação muscular).

A verdade é que somos um exportador de VOLUME apenas, nada mais. A carne bovina brasileira, quando comparada com as carnes bovinas exportadas pelos 20 maiores exportadores do mundo, tem uma desvalorização que fica entre 20% e 40%. Só no ano passado, o Brasil IMPORTOU cerca de 50,8 mil toneladas de carne bovina de qualidade para atender os mercados mais exigentes no nosso mercado nacional. Na realidade, precisamos começar a rever as nossas atitiudes quando o assunto é CADEIA PRODUTIVA DA CARNE BOVINA BRASILEIRA.

Precisamos começar entendendo qual é de fato a matéria prima que temos no campo. Hoje, temos problemas sérios de animais disponíveis para abate. Esta faltando matéria prima no campo, por isso, na média, tivemos uma redução de abate a nível nacional igual ou superior a 40%. Esse é um dos fatores que fazem com o preço do produto no mercado nacional não pare de crescer. Falta matéria prima para abater, unidades frigoríficas paralisando as atividades e com a falta de produto, temos preços que não param de subir.

Como falei, o Brasil é um exportador de volume e sem planejamento quando o assunto esta relacionado ao mercado internacional. Vivemos apenas da sazonalidade do mercado, não conquistamos por méritos dos produtos brasileiros ou da nossa qualidade, vivemos apenas das sobras dos mercados e o pior, o mercado de exportação dita os preços da carne bovina comercializada no mercado interno. Estamos exportando mais, sim, mas existem fatores que definem isso, e o preço altíssimo do dólar nos últimos meses tem contribuído para isso acontecer. Sempre que o dólar fica com um preço elevado, o mercado de exportação se torna mais atraente, isso não mérito desse ou daqule governo, mas sim do valor do dólar unicamente.

Mas como mudar essa situação? Primeiro, precisamos investir em genética, precisamos melhorar a qualidade do rebanho nacional e o principal, precisamos fazer com que os pequenos e médios produtores de gado de corte possam ter mais força e condições para produzir animais com mais qualidade para atender as necessidades dos frigoríficos que trabalham somente no mercado interno e com isso, fornecer uma carne de mais qualidade no mercado nacional. Segundo, quanto mais animais de qualidade a disposição dos frigoríficos, melhores seram os resultados e melhor será o preço pago ao produtor pela sua matéria prima. Pelo menos assim deve ser, explico porque.

Sempre que falamos em comercialização de carne bovina, precisamos entender sobre o mercado consumidor em primeiro lugar, pois a composição de venda (traseiro, dianteiro e costela – com ou sem osso) nos oferece os melhores cenários a serem atendidos e também o valor da @ comercial de venda. Porque o Brasil importou 50,8 mil toneladas de carne bovina em 2020 para atender o mercado de carnes grill? Falta de matéria prima de qualidade.

Se tivéssemos projetos baseados no melhoramento de carcaças, manejo rotacionado e desenvolvimento de pastagens para pequenos e médios produtores no Brasil, poderiamos suprir essa necessidade por animais de qualidade, abastecer esse mercado de carnes grill (mercado esse que paga preços tão bons ou até melhores que o de mercado de exportação), teriamos uma pecuária mais forte e também frigoríficos ativos e com melhores resultados.

Nos últimos meses, vários frigoríficos fecharam suas portas, não somente por causa da pandemia, mas porque esta faltando matéria prima para o abate e os preços das carnes comercializadas no mercado de exportação estão puxando os preços das carnes no mercado interno. Para mim, esse cenário desfavorável a cadeia produtiva da carne bovina só tem uma explicação, negligência por parte daqueles que estão a frente do MAPA.

Como falei anteriormente, não podemos nos preocupar apenas com o número de cabeças de gado e também com o volume de exportação, temos que nos preocupar com a cadeia como um todo e também com os resultados gerais obtidos a partir da compra, transformação e venda praticados por pequenos, médios e grandes, frigoríficos e produtores rurais.

Se não trabalharmos dessa forma, não vamos desenvolver nem a pecuária de corte e nem os frigoríficos. No Brasil, não existe planejamento e nem programação baseada no desenvolvimento da cadeia produtiva da carne bovina, tudo funciona na base da sazonalidade. Temos uma população mundial que não para de crescer e com isso uma necessidade de produção contínua que favorece o desenvolvimento brasileiro.

Mas não podemos viver a base de uma produção EMPURRADA, mas sim, de uma produção PUXADA. É simples e fácil desenvolver uma gestão com essas características. Segundo a FAO, até 2050 a população mundial estará em torno de 10 a 11 bilhões de pessoas, e também segundo a FAO, o Brasil poderá ser o país com as melhores condições para produzir alimentos e dominar 50% do mercado mundial por alimentos.

Mas a pergunta é: O que estamos fazendo para que essa previsão se torne realidade? Na minha opinião, nada. Ainda vivemos de sazonalidade e não de conquistas. Ainda exportamos commodities e não produto transformado. Ainda, literalmente, tapamos buracos no mercado e não os conquistamos como deveríamos.

Nossa representatividade perante ao mercado mundial se restrige as grandes associações e traindigs e não a bandeira do agronegócio. Por isso, precisamos mudar a gestão e começar a trabalhar de fato em prol do desenvolvimento da cadeia da carne bovina como ele precisa. Um exemplo disso esta relacionado a alta nos preços da carne bovina no Brasil. Temos os preços do mercado interno brasileiro baseados 100% nos preços dos produtos comercializados no mercado internacional.

Como pode isso? Aqui é Brasil. Falta matéria prima para abate, frigoríficos fecham, o preço da @ do boi esta baseado 100% no mercado de exportação e importamos carne para atender o mercado brasileiro. Impossível de entender não é? Não existe competitividade leal entre os setores que fazem parte da cadeia produtiva da carne bovina no Brasil. Os grandes ganham muito e os pequenos apenas sobrevivem, quando conseguem, é assim que funciona. Mesmo o quadro que esta sendo apresentado pela exportação de carne bovina não é o ideal.

Como falei anteriormente, nossa carne bovina é desvalorizada no mercado de exportação e o pior, esse mercado, que deveria ser aberto para todos, esta nas mãos das grandes empresas. Existe uma grande associação que domina os mercados mundiais de carne bovina. Essa associação (ABIEC) domina o marketing e os negócios mundias referentes a carne bovina brasileira. Não existe informação disponível e nem um projeto para desenvolver o mercado de exportação para todos.

Se somente um grupo dominar o mercado mundial de carnes, as margens de lucro alcançadas por essas empresas, possibilitam as mesmas, bagunçar o mercado nacional, fazendo com que a operação comercial de venda por parte dos frigoríficos que não exportam, inviável.

Não estou dizendo aqui que, precisamos de uma atitude reguladora por parte do governo, mas, precisaríamos de uma atitude mais profissional por parte do MAPA, onde, deveríamos fomentar os pequenos produtos rurais e frigoríficos de forma que os mesmos se sustentem e se desenvolvam, para atender o mercado nacional de forma mais constante e lucrativa.

Aliás, falando em mercado interno, já passou da hora de acabarmos com as inúmeras habilitações que existem e que regem a cadeia produtiva da proteína animal, em especial a da carne bovina.

Existem 3 tipos de sistemas de fiscalização no Brasil e que não funcionam conforme a regra, que são: Sistema de Inspeção Municipal (SIM), Sistema de Inspeção Estadual (SIE) e o Sistema de Inspeção Federal (SIF). Posso afirmar que, após 26 anos de profissão junto ao setor, posso afirmar que, todos os 3 não funcionam conforme a legislação determina. E se alguém quiser, posso provar o que digo. Fora esses 3 sistemas de fiscalização, temos mais duas certificações que podem ser agregadas a essas, que são os SUSAF e SISBI.

Mas eu pergunto porque existem tantos sistemas de fiscalização e certificações, onde as mesmas só criam mais burocracia e favorecem os grandes frigoríficos brasileiros? Como eu disse, se buscamos melhorar as condições de quem faz parte da cadeia produtiva da carne bovina, precisamos desburocratizar e aumentar a concorrencia, favorecendo assim o livre comércio junto ao mercado nacional. Esta na hora, na realidade já passou da hora de desenvolvermos no Brasil um sistema único de fiscalização.

Quando buscamos desenvolver um determinado segmento, precisamos entender que, o mercado é o primeiro segmento a ser entendido e explorado. Nesse caso, quando falo de uma SISTEMA ÚNICO DE FISCALIZAÇÃO, faço a minha referencia as oportunidades de negócio que podem surgir e que não podem ser barradas devido a um tipo de fiscalização. Dessa forma que acabo engessando um sistema e favorecendo aqueles que podem e que tem mais condições e nesse caso, livre comércio para explorar o que tem de melhor no Brasil.

A criação do SISTEMA ÚNICO DE FISCALIZAÇÃO, pode ser desenvolvido não somente com relação as negociações internas, ou seja, ao mercado nacional. Matendo as mesmas premíssas definidas pela legislação atual, todos os frigoríficos (pequenos, médios e grandes), teríam condições de explorar o mercado nacional sim, mas, se as oportunidades internacionais surgirem, o SISTEMA ÚNICO DE FISCALIZAÇÃO favoreceria a entrada de produtos oriundos de qualquer frigorífico que tivesse negócios com o mercado internacional.

Enfim, precisamos desburocratizar o Agronegócio, em especial a CADEIA PRODUTIVA DA CARNE BOVINA, precisamos disponibilizar informações, fomentar o setor direta e indiretamente, desenvolver uma representatividade internacional, atender melhor o mercado nacional e o principal, começar a desenvolver a produção de carne bovina ainda dentro da porteira.

Se não melhorarmos as condições no campo, não vamos conseguir nos desenvolver na velocidade que precisamos e na forma como o mercado consumidor espera.

Precisamos de uma MERCADO LIVRE, de MAIORES OPORTUNIDADES PARA TODOS e por fim, MELHORES RESULTADOS. E tudo isso é possível de ser alcançado, basta que tenhamos vontade e atitude, somente isso, se mudarmos a GESTÃO SOBRE A CADEIA PRODUTIVA DA CARNE BOVINA, vamos conseguir melhorar o resultado no campo, nas indústrias e nos mercados.

nullSócio Proprietário – CR Gestão Consultoria. Consultor e Especialista em Gestão Estratégica e Operacional na Cadeia Produtiva da Carne Bovina. Autor do livro - O Manifesto A Mudança na Gestão do Agronegócio Brasileiro. Vencedor do Prêmio Carne Forte de 2019 – Personalidade mais Importante da Cadeia Produtiva da Proteína Animal. Indicado por produtores rurais de 12 estados para Ministro da Agricultura em 2020.